A relação entre menopausa e pressão alta é real: com a queda do estradiol, as artérias perdem parte da capacidade de relaxar, o corpo passa a reter mais sal e a aorta fica mais rígida. A pressão tende a subir nos anos seguintes à última menstruação, muitas vezes sem sintoma, e o LDL e a gordura abdominal sobem junto.
Essa fase vem com fogachos, palpitações, dor de cabeça e noites mal dormidas. Tudo costuma ser atribuído “à menopausa”, e a pressão fica anos sem ser medida direito.
Pelos dados do Vigitel de 2021 citados pela diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) de 2024, 63,7% das mulheres com 65 anos ou mais relatam hipertensão, contra 57,1% dos homens da mesma idade. Nessa faixa, menos da metade das mulheres na pós-menopausa tem a pressão controlada.
Neste artigo
- Por que a pressão sobe na menopausa
- Sintoma da menopausa ou da pressão alta?
- O que muda no corpo na transição menopausal
- Terapia hormonal: o que faz e o que não faz pela pressão
- Roteiro de avaliação cardiológica nessa fase
- Perguntas frequentes
- Quando procurar um cardiologista
Por que a pressão sobe na menopausa
Antes da menopausa, o estrogênio ajuda os vasos a se dilatarem, em parte por aumentar a produção de óxido nítrico, uma substância que relaxa a parede da artéria. Ele também freia o sistema de hormônios que contrai os vasos e faz os rins segurarem sal.
A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 descreve o que acontece quando o estradiol cai. Há tendência a ganho de peso, aumento da atividade do sistema nervoso simpático (o “acelerador” do organismo) e disfunção do endotélio, a camada interna dos vasos. O resultado é maior sensibilidade ao sal e vasoconstrição.
Com os anos, a aorta fica mais rígida. Isso explica um padrão comum depois dos 60: a pressão máxima (sistólica) alta com a mínima normal ou até baixa, chamado de hipertensão sistólica isolada. A mulher hipertensa nessa fase também tem mais chance de desenvolver espessamento do músculo do coração (hipertrofia ventricular esquerda).
O risco não é igual para todas. Menopausa antes dos 45 anos, que a diretriz da SBC estima em cerca de 5% das mulheres, e insuficiência ovariana antes dos 40, em cerca de 1%, estão associadas a mais doença cardiovascular. Quem teve pré-eclâmpsia ou diabetes gestacional também chega a essa fase com risco maior; o tema está no artigo sobre pré-eclâmpsia e risco cardiovascular.

Sintoma da menopausa ou da pressão alta?
Na maioria das mulheres, a pressão alta não dá sintoma nenhum. A forma de separar uma coisa da outra é medir a pressão em vários dias, longe dos sintomas.
A diretriz da SBC sobre climatério descreve o fogacho com detalhe: calor súbito no tronco, no pescoço e no rosto, com duração média de 3 a 4 minutos, acompanhado de aceleração do coração, vermelhidão e suor. Quando ocorre de madrugada, pode causar insônia. Formas moderadas a intensas atingem até 80% das mulheres na transição.
| Queixa | Como costuma ser na menopausa | Quando vale investigar coração e pressão |
|---|---|---|
| Fogacho e suor noturno | Ondas de calor de poucos minutos, com rubor e suor, mais à noite | Quando vem com pressão medida alta em casa, dor no peito ou falta de ar |
| Palpitação | Coração acelerado durante o fogacho, que passa junto com ele | Palpitação fora do fogacho, irregular, com tontura ou desmaio; o Holter ajuda a esclarecer |
| Dor de cabeça | Pode piorar com a oscilação hormonal e com o sono ruim | Dor nova, forte, na nuca ao acordar, ou com alteração da visão |
| Insônia e cansaço | Sono fragmentado pelos fogachos | Ronco alto, pausas na respiração, sonolência de dia: suspeita de apneia do sono, que eleva a pressão |
Há ainda um terceiro personagem nessa história. Segundo a diretriz da SBC, o hipertireoidismo imita a menopausa, com suor, palpitação e nervosismo. Por isso o TSH, exame de sangue da tireoide, entra na investigação.
O que muda no corpo na transição menopausal
A declaração científica da American Heart Association de 2020 sobre o tema reuniu estudos que acompanharam mulheres ao longo da transição. Eles mostram piora da composição corporal, das gorduras do sangue e da saúde dos vasos, além do esperado pelo envelhecimento.
No estudo SWAN, citado pela diretriz brasileira de 2024, o LDL, os triglicérides e a apolipoproteína B sobem já no ano próximo à última menstruação, independentemente da idade em que ela acontece. O aumento do LDL nessa fase está ligado ao aparecimento de placas nas carótidas depois da menopausa.
A gordura sai do quadril e das coxas e passa para a barriga, inclusive em volta dos órgãos (gordura visceral). Somada à resistência à insulina, essa mudança aproxima o diabetes tipo 2.
| O que muda | O que acompanhar |
|---|---|
| Pressão arterial tende a subir; a sistólica sobe mais com a idade | Medidas em casa pelo protocolo correto ou MAPA de 24 horas; meta abaixo de 130/80 mmHg em quem já é hipertensa |
| LDL, triglicérides e apolipoproteína B aumentam perto da última menstruação | Perfil lipídico e meta de LDL definida pelo risco cardiovascular |
| Gordura migra para o abdome | Circunferência da cintura, relação cintura-quadril e composição corporal (bioimpedância) |
| Resistência à insulina | Glicemia de jejum e hemoglobina glicada |
| Artérias mais rígidas e risco de placa | Ultrassom de carótidas quando o risco é intermediário ou há dúvida na classificação |
| Sono pior | Investigação de apneia do sono quando há ronco ou sonolência de dia |
O LDL que sobe na menopausa é discutido com mais detalhe no artigo sobre colesterol LDL alto. Segundo a diretriz da SBC, o aumento de doença coronariana nas mulheres costuma aparecer cerca de 10 anos depois da última menstruação. A transição é o período para agir antes disso.
Terapia hormonal: o que faz e o que não faz pela pressão
Duas perguntas aparecem muito nessa fase: “o hormônio vai subir minha pressão?” e “o hormônio protege meu coração?”.
A Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa (SBC, 2024), feita em conjunto com a Febrasgo, resume assim:
- A terapia hormonal é recomendada para mulheres com sintomas do climatério e sem contraindicação.
- Ela deve começar na chamada janela de oportunidade, nos primeiros 10 anos após a menopausa ou antes dos 60 anos. Começar depois disso pode elevar o risco absoluto de doença coronariana, trombose e AVC.
- Não há indicação de usar hormônio com o objetivo de prevenir doença cardiovascular.
- O estrogênio administrado na menopausa não tem efeito sobre a pressão e não muda o risco de eventos cardiovasculares. Mesmo assim, a pressão deve ser monitorada depois do início, e o tratamento é interrompido se ela não ficar controlada.
- Mulheres com hipertensão controlada e sintomas moderados a intensos podem usar terapia hormonal. Na presença de obesidade, colesterol alterado, diabetes ou síndrome metabólica, a diretriz prefere o estrogênio por via transdérmica, aplicado na pele.
- Quem já teve infarto ou AVC, ou tem doença cardiovascular estabelecida, não deve usar terapia hormonal sistêmica.
No Brasil, o estudo ELSA-Brasil (Arq Bras Cardiol, 2022) avaliou 2.138 mulheres com menopausa natural, com idade mediana de 57 anos. As que usavam hormônio tinham menos hipertensão do que as que nunca usaram, com chance cerca de 41% menor após ajustes, e pressão sistólica mediana de 113 mmHg contra 118,5 mmHg. Não houve diferença entre a via oral e as outras vias.
O estudo fotografou um único momento e não prova causa e efeito. As autoras apontam que as usuárias de hormônio já tinham perfil de saúde melhor e concluem que a indicação da terapia é tratar os fogachos; prevenir doença do coração fica fora dela.
A decisão sobre usar terapia hormonal, e por qual via, é da paciente com o ginecologista. Ao cardiologista cabe a avaliação de risco cardiovascular que a diretriz pede antes do início, em quem tem fatores de risco, e o acompanhamento da pressão depois.
Roteiro de avaliação cardiológica nessa fase
Na transição menopausal, o check-up cardiológico ganha perguntas próprias. Um roteiro possível:
- Pressão fora do consultório. A diretriz de hipertensão de 2025 recomenda confirmar o diagnóstico com medidas em casa (MRPA) ou com a MAPA de 24 horas. Em casa, o limite é 130/80 mmHg na média; na MAPA, 130/80 nas 24 horas, 135/85 acordada e 120/70 dormindo. Veja como medir a pressão em casa.
- Exames de sangue: Perfil lipídico, glicemia de jejum e hemoglobina glicada, função renal e TSH.
- História ginecológica e obstétrica. Idade da menopausa, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, síndrome dos ovários policísticos e uso de hormônios ao longo da vida entram na estratificação de risco, segundo a diretriz da SBC.
- Cálculo do risco cardiovascular com os escores tradicionais, já que não existe um escore próprio para a menopausa.
- Ultrassom de carótidas quando o risco fica intermediário ou baixo e há dúvida. Placa na carótida ou espessura da parede acima de 1,5 mm reclassificam o risco para cima.
- Eletrocardiograma e ecocardiograma quando há hipertensão, para ver se o coração já sofreu efeito da pressão.
A medida fora do consultório tem peso aqui. Pela diretriz de 2025, a hipertensão do avental branco (pressão alta só no consultório) aparece em 7% a 15% das pessoas avaliadas, e a hipertensão mascarada (normal no consultório e alta fora dele) em 8% a 22%.
Muitas pacientes chegam com várias medidas altas anotadas sempre logo depois de um fogacho. Quando repetimos com a MAPA, o desenho do dia inteiro costuma ser bem diferente, para mais ou para menos.
Perguntas frequentes
A menopausa causa pressão alta?
Ela contribui. A queda do estradiol aumenta a sensibilidade ao sal, a atividade simpática e a rigidez das artérias, segundo a diretriz brasileira de hipertensão de 2025. Peso, genética, sono e consumo de sal também pesam.
Fogacho aumenta a pressão?
Durante o episódio, o coração acelera e a pressão medida pode sair mais alta. Por isso, a pressão deve ser medida em repouso, longe do fogacho, e de preferência por vários dias seguidos ou pela MAPA.
Quem tem pressão alta pode fazer reposição hormonal?
Com a pressão controlada, a diretriz da SBC de 2024 permite, com preferência pela via transdérmica em quem tem obesidade, diabetes ou colesterol alterado. A decisão é do ginecologista com a paciente, depois de uma avaliação de risco cardiovascular.
A terapia hormonal protege o coração?
Não deve ser usada com esse objetivo. A diretriz da SBC recomenda de forma forte que o hormônio não seja iniciado para prevenção cardiovascular; a indicação é tratar os sintomas.
Quando procurar um cardiologista
Vale marcar uma avaliação se você está na transição menopausal ou já passou por ela e:
- tem medidas de pressão de 130/80 mmHg ou mais em casa;
- notou aumento do LDL, da glicemia ou da cintura nos últimos exames;
- teve menopausa antes dos 45 anos, pré-eclâmpsia ou diabetes na gravidez;
- vai iniciar terapia hormonal e tem fatores de risco cardiovascular;
- tem palpitação fora dos fogachos, falta de ar ou cansaço aos esforços.
Dor no peito intensa, falta de ar súbita, fraqueza de um lado do corpo ou dificuldade para falar pedem atendimento imediato no pronto-socorro.
No consultório em Santo André, a consulta inclui eletrocardiograma e ecocardiograma. Quando indicados, MAPA, ultrassom de carótidas, Holter e estudo do sono domiciliar são feitos no próprio local.
Dr. José Henrique Dias de Sousa, médico cardiologista e ecocardiografista. CRM/SP 168053 | RQE 102240. Formação em cardiologia e ecocardiografia pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Conteúdo de caráter educativo.
Referências: Oliveira GMM, Almeida MCC, Arcelus CMA, et al. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa: 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(7):e20240478. doi:10.36660/abc.20240478. Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Nefrologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial: 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624. doi:10.36660/abc.20250624. Ferreira-Campos L, et al. Terapia Hormonal e Hipertensão em Mulheres na Pós-Menopausa: Resultados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil). Arq Bras Cardiol. 2022;118(5):905-913. doi:10.36660/abc.20210218. El Khoudary SR, Aggarwal B, Beckie TM, et al. Menopause Transition and Cardiovascular Disease Risk: Implications for Timing of Early Prevention. A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2020;142(25):e506-e532. doi:10.1161/CIR.0000000000000912.





