Dr. José Henrique Dias | Cardiologista em Santo André – São Paulo

Quimioterapia e coração: por que o cardiologista acompanha o tratamento do câncer

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Dr. José Henrique Dias

CARDIOLOGISTA | CRM 168053 - RQE 102240

Alguns tratamentos contra o câncer podem afetar o coração, e por isso a relação entre quimioterapia e coração faz parte do planejamento oncológico. O cardiologista avalia o coração antes do início, acompanha durante e depois, e conversa com o oncologista para que o tratamento siga com segurança. Na maioria das pessoas, ele segue até o fim sem interrupção.

A notícia de que um remédio contra o câncer “pode fazer mal ao coração” costuma assustar a paciente e, mais ainda, a família. Vale colocar em proporção: o acompanhamento existe justamente porque a alteração, quando aparece, costuma surgir de forma gradual e pode ser detectada cedo, antes de qualquer sintoma.

O câncer de mama é a situação mais comum no consultório, mas o mesmo raciocínio vale para linfomas, leucemias, sarcomas e outros tumores tratados com medicamentos semelhantes. Este artigo explica quais tratamentos pedem esse cuidado, que exames são feitos e como entender os números do laudo.

Neste artigo

  1. Quais tratamentos podem afetar o coração
  2. Por que avaliar o coração antes de começar
  3. Quais exames entram na avaliação
  4. Como é o acompanhamento durante e depois
  5. O que significa uma queda do GLS no laudo
  6. Por que repetir no mesmo aparelho
  7. Se o exame mostrar alteração
  8. Perguntas frequentes
  9. Quando procurar um cardiologista

Quais tratamentos podem afetar o coração

O nome técnico do problema é cardiotoxicidade: qualquer efeito do tratamento oncológico sobre o coração ou os vasos. O mais conhecido é a perda de força do músculo cardíaco, chamada de disfunção ventricular. Também podem ocorrer alterações de ritmo, aumento da pressão arterial e, mais raramente, inflamação do coração.

Nem todo tratamento tem esse risco. A Diretriz Brasileira de Cardio-oncologia (SBC, 2020) e a diretriz europeia de cardio-oncologia (ESC, 2022) destacam alguns grupos:

Grupo de medicamentoExemplos (princípio ativo)Onde é mais usadoPrincipal cuidado com o coração
Antraciclinasdoxorrubicina, epirrubicinaCâncer de mama, linfomas, sarcomas, leucemiasPerda de força do músculo, relacionada à dose acumulada
Terapias anti-HER2trastuzumabe, pertuzumabeCâncer de mama HER2 positivo, alguns tumores de estômagoQueda da contração, em geral reversível com ajuste e tratamento
Fluoropirimidinasfluorouracila, capecitabinaTumores do intestino, estômago, mamaEspasmo das artérias do coração, com dor no peito
Inibidores do VEGFbevacizumabe e outrosRim, intestino, fígadoAumento da pressão arterial
Imunoterapia com inibidores de checkpointpembrolizumabe, nivolumabeMelanoma, pulmão, rim e outrosMiocardite (inflamação do músculo), rara
Radioterapia sobre o tóraxnão se aplicaMama esquerda, linfomas do mediastinoEfeitos tardios nas artérias e válvulas, anos depois

O risco individual depende de mais coisas além do remédio. Pesam a dose total, a combinação de medicamentos, a idade, e principalmente o coração que a paciente já tinha: pressão alta, diabetes, colesterol alto, tabagismo ou uma doença cardíaca prévia aumentam a chance de efeito.

Paciente de óculos ouvindo com atenção a explicação durante a consulta
A avaliação cardiológica antes e durante o tratamento é feita em conjunto com o oncologista. Foto: StockSnap (domínio público).

Por que avaliar o coração antes de começar

A avaliação basal, feita antes da primeira sessão, tem duas funções. A primeira é classificar o risco. A diretriz europeia propõe que essa estratificação seja feita antes de tratamentos potencialmente cardiotóxicos, para definir com que frequência o coração será reavaliado.

A segunda função é criar um ponto de comparação. Todos os exames seguintes serão lidos em relação a esse primeiro. Sem ele, um valor de laudo isolado diz pouco sobre o que mudou com o tratamento.

Essa avaliação também é a hora de cuidar do que já estava ali. Controlar a pressão, ajustar o colesterol ou tratar um diabetes descompensado antes do início reduz o risco cardiovascular durante todo o tratamento.

A primeira pergunta da família quase sempre é se a avaliação vai atrasar a quimioterapia. Não atrasa, desde que seja marcada logo.

Para a consulta, o ideal é levar o resumo do plano de tratamento, com o nome dos medicamentos, e os exames cardiológicos anteriores, se houver.

Quais exames entram na avaliação

A diretriz europeia recomenda consulta clínica e eletrocardiograma para todos os pacientes antes de tratamentos com potencial cardiotóxico. Para quem vai receber antraciclinas ou terapia anti-HER2, recomenda também o ecocardiograma com medida do strain.

  • Consulta cardiológica: histórico, pressão arterial, medicamentos em uso, fatores de risco.
  • Eletrocardiograma: registra o ritmo e serve de base para comparar alterações futuras.
  • Ecocardiograma com strain: o ecocardiograma é o ultrassom do coração; o strain é uma análise feita por software que mede quanto o músculo se encurta a cada batida e mostra sofrimento do músculo antes da fração de ejeção cair.
  • Troponina e peptídeos natriuréticos (BNP ou NT-proBNP), exames de sangue indicados em situações selecionadas, conforme o risco. A troponina sobe quando há lesão do músculo; os peptídeos natriuréticos sobem quando o coração trabalha sob sobrecarga.

A fração de ejeção, número mais conhecido do ecocardiograma, é a porcentagem de sangue que o ventrículo esquerdo bombeia a cada batida. O strain global longitudinal, que aparece no laudo como GLS, mede a deformação do músculo. Expliquei os dois em detalhe no artigo sobre ecocardiograma com strain.

No consultório em Santo André, consulta, eletrocardiograma e ecocardiograma com strain são feitos no mesmo atendimento, e o laudo sai logo após o exame.

Como é o acompanhamento durante e depois

A frequência dos controles depende do medicamento e do risco de cada paciente. Não existe um calendário único, e ele é combinado com o oncologista. Alguns exemplos da diretriz europeia:

  • Na terapia anti-HER2 do câncer de mama inicial, ecocardiograma a cada 3 meses durante o tratamento.
  • Com antraciclinas, exames programados conforme a dose acumulada e o risco, e um ecocardiograma no primeiro ano após o fim do tratamento.
  • Quem tem risco alto pode precisar de controles mais próximos, com troponina e peptídeos natriuréticos entre os ciclos.

O acompanhamento não termina com a última sessão. Parte dos efeitos das antraciclinas e da radioterapia aparece anos depois, e a diretriz europeia recomenda reavaliação periódica dos sobreviventes de maior risco. Na prática, o cardiologista entra no calendário anual da paciente.

O que significa uma queda do GLS no laudo

O GLS é expresso com sinal negativo, por exemplo -20%. Quanto mais negativo, melhor a contração. No equipamento do consultório, o valor é considerado normal quando o número absoluto é maior que 18%.

Durante a quimioterapia, porém, o que mais importa é a comparação com o exame basal. A diretriz europeia de 2022 considera relevante uma queda relativa do GLS acima de 15%. A diretriz brasileira de 2020 adota um corte semelhante.

Queda relativa é calculada sobre o valor inicial, e não pela diferença simples entre os números. Veja:

GLS basalGLS no controleQueda relativaLeitura
-21%-19%cerca de 10%Variação dentro do esperado entre exames
-20%-17%15%No limite; atenção ao próximo controle
-20%-16%20%Queda relevante pela diretriz, mesmo com números próximos

Pela classificação europeia, quando a fração de ejeção continua igual ou acima de 50% e aparece uma queda relativa do GLS acima de 15% (ou uma elevação nova de troponina ou peptídeos natriuréticos), o quadro é chamado de disfunção leve e assintomática. É uma fase de alerta precoce. O coração continua bombeando bem.

Por que repetir no mesmo aparelho

Cada fabricante de equipamento e de software calcula o strain de forma um pouco diferente. A mesma paciente pode ter -19% em um aparelho e -17% em outro, no mesmo dia, sem que nada tenha mudado no coração.

Como a decisão se apoia numa variação de 15%, uma diferença técnica entre aparelhos pode parecer piora ou esconder uma piora real. Por isso a diretriz europeia recomenda usar, nos controles seriados, a mesma modalidade de imagem e o mesmo fabricante. A diretriz brasileira faz recomendação parecida para os exames de sangue: usar o mesmo tipo de dosagem de troponina e NT-proBNP ao longo do tratamento.

Na prática, para a família, vale escolher onde os ecocardiogramas serão feitos antes do primeiro exame e manter esse local até o fim do acompanhamento. Se mudar de serviço for inevitável, leve todos os laudos anteriores.

Se o exame mostrar alteração

Uma queda do GLS ou uma troponina alterada não significa, automaticamente, parar a quimioterapia. Na disfunção leve e assintomática durante a terapia anti-HER2, a diretriz europeia orienta, em geral, manter o tratamento com monitoramento mais próximo.

O que costuma mudar é a estratégia de proteção do coração. O cardiologista pode iniciar medicamentos cardioprotetores, apertar o controle da pressão ou encurtar o intervalo dos exames. Ajustes no esquema oncológico, quando necessários, são decididos pelo oncologista em conversa com o cardiologista.

Nenhum tratamento deve ser suspenso ou adiado por conta própria por causa de um resultado de exame. A decisão é sempre conjunta, pesando o benefício contra o câncer e o risco para o coração.

Perguntas frequentes

Quimioterapia faz mal ao coração?

Alguns medicamentos podem afetar o coração, principalmente antraciclinas e terapias anti-HER2, mas muitos esquemas não têm esse efeito relevante. Com avaliação antes e controles durante, a alteração costuma ser detectada cedo, quando ainda não há sintomas.

Preciso de avaliação cardiológica antes da quimioterapia?

Quando o plano inclui medicamentos com potencial cardiotóxico, a diretriz europeia recomenda consulta e eletrocardiograma, e ecocardiograma com strain para antraciclinas e anti-HER2. O oncologista costuma fazer o encaminhamento ao definir o tratamento.

O que é strain na cardiotoxicidade?

É a medida, pelo ecocardiograma, de quanto o músculo cardíaco se deforma a cada batida. Ele cai antes da fração de ejeção, e uma queda relativa acima de 15% em relação ao exame basal sinaliza agressão inicial ao coração.

O efeito no coração é permanente?

Depende do medicamento e de quando a alteração foi identificada. A disfunção ligada ao trastuzumabe costuma melhorar com ajuste e tratamento; a das antraciclinas tende a responder melhor quanto mais cedo o tratamento cardiológico começa.

A radioterapia na mama também afeta o coração?

A radioterapia no tórax, especialmente na mama esquerda, pode ter efeitos tardios nas artérias e nas válvulas do coração, anos depois. Por isso quem fez esse tratamento se beneficia de acompanhamento cardiológico de longo prazo.

Quando procurar um cardiologista

Vale agendar uma avaliação se você ou alguém da família:

  • vai iniciar tratamento com antraciclinas, terapia anti-HER2 ou outro medicamento citado pelo oncologista como cardiotóxico;
  • já tem pressão alta, diabetes, colesterol alto ou doença cardíaca e vai começar o tratamento do câncer;
  • terminou a quimioterapia ou a radioterapia no tórax e nunca fez um controle cardiológico depois;
  • notou, durante ou após o tratamento, falta de ar ou cansaço desproporcional aos esforços, inchaço nas pernas ou palpitações. Sobre esses sintomas, leia falta de ar e cansaço: quando pode ser o coração.

Dor no peito intensa, falta de ar súbita ou desmaio pedem atendimento imediato no pronto-socorro.

No consultório, em Santo André, os retornos de acompanhamento podem ser combinados entre consulta presencial, com ecocardiograma no mesmo equipamento, e consulta online para discutir resultados.


Dr. José Henrique Dias de Sousa, médico cardiologista e ecocardiografista. CRM/SP 168053 | RQE 102240. Formação em cardiologia e ecocardiografia pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Conteúdo de caráter educativo.

Referências: Lyon AR, López-Fernández T, Couch LS, et al. 2022 ESC Guidelines on cardio-oncology developed in collaboration with the European Hematology Association (EHA), the European Society for Therapeutic Radiology and Oncology (ESTRO) and the International Cardio-Oncology Society (IC-OS). Eur Heart J. 2022;43(41):4229-4361. doi:10.1093/eurheartj/ehac244. Hajjar LA, Costa IBSS, Lopes MACQ, et al. Diretriz Brasileira de Cardio-oncologia, 2020. Arq Bras Cardiol. 2020;115(5):1006-1043. doi:10.36660/abc.20201006.

Se você apresenta sintomas cardíacos ou deseja realizar uma avaliação preventiva, procure atendimento especializado. O Dr. José Henrique Dias é Cardiologista em Santo André – São Paulo, especialista em ecocardiograma, sócio titular da Sociedade Brasileira de Cardiologia, com títulos de Especialista em Cardiologia e Ecocardiografia reconhecidos pela SBC, além de atuar como médico do corpo clínico e preceptor no Hospital Israelita Albert Einstein Einstein.

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O Dr. José Henrique Dias é médico cardiologista especialista em ecocardiograma, sócio titular da Sociedade Brasileira de Cardiologia, com títulos de Especialista em Cardiologia e Ecocardiografia reconhecidos pela SBC, além de atuar como médico do corpo clínico e preceptor no Hospital Israelita Albert Einstein Einstein.

Dr. José Henrique Dias - Cardiologista em Santo André
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Médico cardiologista especialista em ecocardiograma, com 11 anos de experiência e mais de 7.000 exames realizados com precisão e responsabilidade.

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