O ecocardiograma com strain é o ecocardiograma convencional acrescido de uma análise feita por software que mede quanto o músculo do coração se encurta a cada batida. Com isso, ele consegue mostrar sinais de sofrimento do músculo cardíaco mesmo quando a fração de ejeção, o número mais conhecido do laudo, ainda está normal.
Esse detalhe muda decisões. Uma pessoa em quimioterapia, um hipertenso de longa data ou alguém com doença de válvula pode ter o coração bombeando bem e, ao mesmo tempo, um músculo que já está trabalhando no limite. O strain ajuda a enxergar essa fase intermediária, antes que ela apareça nos exames tradicionais.
Neste artigo, explico o que o exame mede, quando ele é indicado (e quando não precisa ser feito), como é a realização e como ler o número que aparece no laudo.
Neste artigo
- Primeiro, o que é fração de ejeção
- O que o strain mede
- Fração de ejeção normal, strain alterado
- Quando o cardiologista indica o exame
- Como o exame é feito
- Como ler o número do laudo
- O que muda depois do resultado
- Perguntas frequentes
- Quando procurar um cardiologista
Primeiro, o que é fração de ejeção
O coração tem quatro cavidades. A mais exigida é o ventrículo esquerdo, a câmara que bombeia o sangue para o corpo inteiro. A cada batida, ele se enche e depois se contrai, empurrando parte desse sangue para a aorta.
A fração de ejeção é a porcentagem do sangue que estava dentro do ventrículo esquerdo e que sai a cada batida. Se o ventrículo está com 100 ml de sangue e bombeia 60 ml, a fração de ejeção é de 60%.
Ninguém esvazia o coração por completo, então 100% não existe e não é meta. Pela recomendação conjunta das sociedades americana e europeia de ecocardiografia (ASE/EACVI, 2015), a fração de ejeção é considerada normal a partir de 52% nos homens e de 54% nas mulheres.
A fração de ejeção tem um limite: ela informa quanto o coração esvazia, mas não quanto esforço o músculo fez para chegar a esse resultado. Pense num carro que ainda chega a 100 km/h, só que com o motor forçando. O velocímetro está normal; o motor, não.
O que o strain mede
Strain, em inglês, quer dizer deformação. No coração, é a medida de quanto as fibras do músculo encurtam durante a contração, em porcentagem do seu comprimento em repouso.
O cálculo é feito por uma técnica chamada speckle tracking. Nas imagens do ecocardiograma (o ultrassom do coração), o músculo tem um padrão de pontinhos próprio, como uma impressão digital. O software acompanha esses pontos quadro a quadro e calcula quanto cada trecho do músculo se encurtou.
O valor mais usado é o strain global longitudinal, que aparece no laudo como GLS (sigla em inglês para global longitudinal strain). Ele resume o encurtamento das fibras no sentido do comprimento do ventrículo, da base até a ponta do coração. Essas fibras costumam ser as primeiras a sofrer em várias doenças, e por isso o GLS se altera cedo.
Para o paciente, a diferença é simples: o ecocardiograma convencional mostra o tamanho das cavidades, as válvulas e a fração de ejeção. Com o strain, entra no laudo também a qualidade da contração do músculo, segmento por segmento.
Fração de ejeção normal, strain alterado: por que isso acontece
Quando o músculo começa a ser agredido, por pressão alta mantida, por um medicamento ou por uma doença de depósito, o coração compensa. As fibras que ainda funcionam bem trabalham mais, a forma do ventrículo se ajusta, e o volume bombeado se mantém por um bom tempo.
Nessa fase, a fração de ejeção continua normal. O strain, porém, já mostra que as fibras longitudinais estão encurtando menos. A queda da fração de ejeção costuma vir depois, quando a compensação se esgota.
Um caso publicado em 2025 na revista Echo Research and Practice ilustra bem: uma mulher de 48 anos, tratada anteriormente com um quimioterápico da classe das antraciclinas, tinha fração de ejeção de 70%, um valor normal. O GLS, no mesmo exame, era de -12,7%, bem abaixo da referência.

No consultório, a pergunta mais frequente depois desse tipo de laudo é: “mas a minha fração de ejeção não estava normal?”. Estava. E é exatamente por isso que o strain foi pedido.
Quando o cardiologista indica o exame
O strain é um complemento do ecocardiograma e não substitui a consulta. A indicação parte de uma pergunta clínica específica. As situações mais comuns:
| Situação | O que o strain acrescenta |
|---|---|
| Quimioterapia com medicamentos que podem afetar o coração (antraciclinas, trastuzumabe, entre outros) | Exame de base antes do tratamento e controles durante. A diretriz europeia de cardio-oncologia (ESC, 2022) usa a queda do GLS para identificar agressão ao coração antes que a fração de ejeção caia. |
| Pressão alta ou diabetes de longa data | Mostra se o músculo já sente os anos de sobrecarga, o que pesa na decisão de apertar o controle. |
| Doença de válvula com fração de ejeção preservada | Ajuda a perceber quando o ventrículo começa a cansar, informação útil para decidir o momento de uma intervenção. |
| Suspeita de cardiomiopatia hipertrófica ou de amiloidose cardíaca | Alguns padrões de strain sugerem essas doenças e orientam a investigação seguinte. |
| Insuficiência cardíaca | Acrescenta informação sobre a reserva do músculo e o acompanhamento. |
| Uso de testosterona ou de anabolizantes | Avaliação basal e de controle do músculo cardíaco. Detalho esse caso em reposição de testosterona e anabolizantes: como avaliar o coração. |
Quem não tem nenhuma dessas situações, não tem sintomas e fez um ecocardiograma recente normal raramente ganha algo com o strain. Nesses casos, a decisão sobre quando fazer o ecocardiograma segue os critérios do exame convencional.
Como o exame é feito

Para quem faz, o ecocardiograma com strain é igual ao ecocardiograma convencional. Se você nunca fez, vale ler antes como funciona o ecocardiograma.
- Não precisa de jejum nem de suspender medicamentos.
- Você fica deitado, de lado, enquanto o médico passa o transdutor com gel no peito. Não dói e não usa radiação nem contraste.
- Durante a captação, o exame inclui um eletrocardiograma simultâneo, com três adesivos no tórax, porque o software precisa saber em que momento de cada batida está.
- Às vezes peço para segurar a respiração por alguns segundos, para a imagem ficar estável.
- Leva cerca de 30 minutos.
O acompanhante pode entrar na sala e ficar durante todo o exame, com autorização do paciente. O laudo é liberado logo após o término.
Como ler o número do laudo
O GLS aparece com sinal negativo, por exemplo -20%. O sinal indica encurtamento: a fibra fica menor do que era. Por isso, quanto mais negativo, melhor a contração. Um GLS de -21% é melhor do que um de -15%.
No equipamento usado no consultório, o valor de referência é maior que 18% em valor absoluto. Em outras palavras, de -18% para baixo (-19%, -22%) está dentro do esperado. Valores como -16% ou -12% indicam contração reduzida.
Esse ponto de corte não é universal. Cada fabricante de aparelho e de software tem uma faixa um pouco diferente, e a recomendação ASE/EACVI de 2015 reconhece essa variação. Por isso, o laudo deve informar a referência do equipamento em que o exame foi feito.
A consequência prática: quem vai repetir o strain deve, sempre que possível, repetir no mesmo serviço. Nos controles, o que mais importa é a variação em relação ao exame anterior. Na quimioterapia, a diretriz europeia considera relevante uma queda relativa do GLS acima de 15%. De -20% para -16%, por exemplo, a queda relativa é de 20%, mesmo com ambos os números parecendo próximos.
| Resultado do GLS (equipamento do consultório) | Leitura |
|---|---|
| -18% ou mais negativo (ex.: -19%, -22%) | Dentro da referência |
| Entre -17,9% e 0 (ex.: -16%, -12%) | Contração longitudinal reduzida; o significado depende do contexto clínico |
| Queda relativa acima de 15% em relação ao exame anterior | Mudança relevante, mesmo que o valor ainda pareça “perto do normal” |
O que muda depois do resultado
Um strain reduzido, sozinho, não fecha diagnóstico. O número entra na conta junto com a consulta, a medida da pressão, os exames de sangue e o restante do ecocardiograma.
Na prática, o resultado costuma levar a uma destas decisões: tornar o controle da pressão ou do diabetes mais rigoroso, conversar com o oncologista sobre o esquema do tratamento ou sobre um protetor cardíaco, investigar uma doença específica sugerida pelo padrão ou simplesmente encurtar o intervalo da próxima reavaliação.
O intervalo de controle varia com o motivo do exame. Na quimioterapia, segue o calendário do tratamento. No uso de testosterona, o controle costuma ser em seis meses, e a própria equipe do consultório entra em contato para agendar esse retorno.
Perguntas frequentes
O ecocardiograma com strain dói ou tem preparo?
Não dói e não exige preparo. É o mesmo exame do ecocardiograma convencional, com gel e transdutor sobre o peito, e dura cerca de 30 minutos.
O strain substitui o ecocardiograma comum?
Não. O strain é calculado a partir das imagens do ecocardiograma e é sempre feito junto com ele. As medidas do exame convencional (cavidades, válvulas, fração de ejeção) continuam no laudo.
Qual é o valor normal do strain?
No equipamento do consultório, o GLS é normal quando o valor absoluto passa de 18%, ou seja, -18% ou mais negativo. Outros aparelhos podem ter referências um pouco diferentes, e o laudo deve informar qual foi usada.
De quanto em quanto tempo é preciso repetir?
Depende do motivo. Na quimioterapia, acompanha as etapas do tratamento; no uso de testosterona, o controle costuma ser semestral. Para hipertensão e diabetes, o cardiologista define o intervalo conforme o primeiro resultado.
O exame é coberto pelo plano de saúde?
No consultório, o ecocardiograma com strain é particular. O recibo pode ser usado para pedir reembolso, conforme as regras de cada plano.
Quando procurar um cardiologista
Vale conversar com um cardiologista sobre o strain se você:
- vai começar ou está fazendo quimioterapia com medicamentos que podem afetar o coração;
- tem pressão alta ou diabetes há muitos anos e nunca avaliou o músculo cardíaco;
- tem doença de válvula em acompanhamento;
- usa ou pretende usar testosterona ou anabolizantes;
- tem cansaço ou falta de ar aos esforços sem explicação, mesmo com um ecocardiograma anterior “normal”.
Dor no peito intensa, falta de ar súbita ou desmaio pedem atendimento imediato no pronto-socorro. Leia também sobre os sinais de alerta da dor no peito.
No consultório, em Santo André, o ecocardiograma e a análise do strain são feitos e laudados pelo próprio cardiologista, no mesmo atendimento. Saiba mais sobre o ecocardiograma em Santo André.
Dr. José Henrique Dias de Sousa, médico cardiologista e ecocardiografista. CRM/SP 168053 | RQE 102240. Formação em cardiologia e ecocardiografia pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Conteúdo de caráter educativo.
Referências: Lang RM et al. Recommendations for cardiac chamber quantification by echocardiography in adults. J Am Soc Echocardiogr. 2015;28:1-39. Lyon AR et al. 2022 ESC Guidelines on cardio-oncology. Eur Heart J. 2022;43:4229-4361. Li et al. Echo Res Pract. 2025;12.





