Quem usa ou já usou anabolizante tem um coração que precisa ser olhado de perto, e quase ninguém olha. No consultório, eu olho, mostro o que encontrei e explico o que aquilo significa daqui a vinte anos. O que fazer com essa informação é decisão de cada um.

A avaliação cardiológica de quem usa testosterona, seja em reposição prescrita, seja por conta própria, junta consulta, eletrocardiograma e ecocardiograma com strain para medir a pressão, a espessura e a força do músculo do coração e o ritmo dos batimentos. O objetivo é encontrar alterações enquanto elas ainda não dão sintoma.
A seguir, explico o que muda entre a reposição e o uso em doses altas, o que pode aparecer no coração, como é a avaliação e por que o controle de seis meses importa tanto quanto o primeiro exame.
Neste artigo
- Reposição prescrita e uso por conta própria
- O que pode mudar no coração
- Como é a avaliação no consultório
- Antes de começar a reposição
- Por que o controle é no mesmo aparelho
- Perguntas frequentes
- Quando procurar um cardiologista
Reposição prescrita e uso por conta própria: a diferença está na dose
A testosterona é o principal hormônio masculino. Quando o corpo produz pouco, situação chamada de hipogonadismo, o urologista ou o endocrinologista pode indicar a reposição, com o objetivo de trazer o nível de volta para a faixa normal.
Durante anos, a dúvida foi se essa reposição aumentaria o risco de infarto. O maior estudo feito até hoje sobre o tema, o TRAVERSE, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, acompanhou cerca de 5.200 homens de 45 a 80 anos com hipogonadismo e risco cardiovascular elevado. Quem recebeu testosterona não teve mais infarto, AVC ou morte cardiovascular do que quem recebeu placebo.
O mesmo estudo, porém, registrou mais casos de fibrilação atrial (uma arritmia), de embolia pulmonar (coágulo que vai para o pulmão) e de lesão nos rins no grupo da testosterona. Ou seja: mesmo a reposição bem indicada pede acompanhamento.
Os anabolizantes usados para ganho de massa muscular costumam ser derivados da testosterona, em doses várias vezes acima do que o corpo produz. Nessa faixa, o efeito sobre o coração muda de patamar. Uma revisão publicada na revista Circulation (Baggish et al., 2017) comparou usuários de longa data com pessoas que treinavam sem usar: os usuários tinham contração mais fraca do ventrículo esquerdo, pior relaxamento do músculo e mais placa nas artérias coronárias.
O que pode mudar no coração
A maior parte dessas alterações não dá sintoma por anos. Por isso a avaliação é feita mesmo em quem se sente bem.
| Alteração | O que significa | Qual exame mostra |
|---|---|---|
| Pressão alta | Sobrecarga contínua para o coração e as artérias, muitas vezes em gente jovem que nunca mediu a pressão | Medida no consultório e MAPA de 24 horas |
| Espessamento do músculo (hipertrofia) | O coração cresce como os outros músculos, mas fica mais rígido e enche pior | Ecocardiograma |
| Contração reduzida com fração de ejeção normal | O músculo já trabalha no limite, embora o bombeamento ainda pareça normal | Ecocardiograma com strain |
| Arritmias | Batimentos fora do ritmo, de palpitação ocasional a fibrilação atrial | Eletrocardiograma e Holter de 24 horas |
| Sangue mais grosso e colesterol alterado | Aumento do hematócrito (proporção de glóbulos vermelhos) e queda do HDL, o colesterol “bom” | Exames de sangue, em geral acompanhados por quem prescreve |
A fração de ejeção é a porcentagem do sangue que o ventrículo esquerdo bombeia a cada batida. Em quem usa anabolizante, é comum ela estar normal enquanto o strain, que mede o encurtamento das fibras do músculo, já mostra queda. Expliquei essa diferença em detalhe no artigo sobre ecocardiograma com strain.
Parte dessas alterações costuma melhorar quando o uso é interrompido: a pressão e o colesterol, por exemplo, tendem a voltar para perto do que eram. Outra parte não volta, como as áreas de fibrose (pequenas cicatrizes no músculo). Saber o que está em cada grupo é uma das coisas que a avaliação responde.
Como é a avaliação no consultório
A consulta começa por uma conversa sobre o que você usa, há quanto tempo e se o uso é atual ou já passou. Essa informação muda o que eu procuro no exame, e ela é ouvida sem julgamento.
No mesmo atendimento, em Santo André, são feitos o eletrocardiograma e o ecocardiograma com strain. O mapa do strain aparece na tela em forma de alvo colorido, e eu mostro e explico cada parte ali mesmo. Quem vê o próprio exame entende o resultado muito melhor do que quem só lê o laudo.
O que a consulta inclui:
- consulta cardiológica completa;
- eletrocardiograma e ecocardiograma com strain;
- laudo liberado logo após o exame, com as imagens explicadas na hora;
- relatório para o médico que prescreve, quando existe um;
- retorno em seis meses, que a própria equipe do consultório entra em contato para agendar.
O que fica com outro profissional: a prescrição e o ajuste de hormônios (com o urologista ou o endocrinologista), os exames laboratoriais e hormonais e a orientação de treino e de dieta. Se a avaliação mostrar algo que precise de investigação além do coração, oriento a quem procurar.
Antes de começar a reposição
Reposição de testosterona mexe com o coração, e raramente alguém examina isso a fundo antes de começar. A avaliação antes da primeira dose cria uma linha de base: um retrato do coração sem o efeito do hormônio.
Sem esse retrato, um achado no exame feito um ano depois fica sem comparação. Com ele, é possível dizer se algo mudou e quanto. O resultado vai para quem prescreveu, e a decisão sobre a reposição continua com ele e com o paciente.
Por que o controle é no mesmo aparelho
O valor do strain varia um pouco de um fabricante de aparelho para outro. No equipamento do consultório, a referência é um GLS (strain global longitudinal) maior que 18% em valor absoluto, mas outro serviço pode usar uma faixa diferente.
Por isso, o exame de controle precisa ser feito, sempre que possível, no mesmo aparelho. O que mais informa é a variação entre um exame e outro. Strain feito em máquinas diferentes não permite essa comparação, e é o segundo exame que dá sentido ao primeiro.
Perguntas frequentes
Testosterona faz mal ao coração?
Na reposição bem indicada, o estudo TRAVERSE não mostrou aumento de infarto ou AVC, mas registrou mais fibrilação atrial e embolia pulmonar. Em doses acima do fisiológico, como no uso de anabolizantes, há aumento de pressão, espessamento do músculo e piora da contração.
Quem usa anabolizante precisa de qual exame?
A base é consulta, eletrocardiograma e ecocardiograma com strain. Dependendo do que aparecer, podem entrar o MAPA, para a pressão, e o Holter, para o ritmo.
Preciso parar de usar para fazer a avaliação?
Não. A avaliação mostra como o coração está agora, com ou sem uso. O que fazer com o resultado é decisão sua.
O que eu contar na consulta fica entre nós?
Fica. O sigilo médico é dever previsto no artigo 73 do Código de Ética Médica, e o que é dito na consulta não é compartilhado sem a sua autorização. O relatório para outro médico só é enviado se você quiser.
O cardiologista prescreve ou ajusta a dose?
Não. Prescrição e ajuste ficam com o urologista ou o endocrinologista que acompanha a reposição. O cardiologista avalia o coração e envia o resultado para quem prescreve.
Quando procurar um cardiologista
Para quem usa ou pretende usar testosterona, a avaliação faz sentido antes do início e depois a cada seis meses. Alguns sinais pedem consulta antes disso:
- palpitação ou sensação de batimento irregular (veja também arritmia cardíaca);
- falta de ar maior do que o esforço justificaria;
- pressão alta antes dos 40 anos;
- inchaço nas pernas ou cansaço que não melhora com descanso.
Desmaio durante o exercício, dor no peito intensa ou falta de ar súbita pedem atendimento imediato no pronto-socorro.
Dr. José Henrique Dias de Sousa, médico cardiologista e ecocardiografista. CRM/SP 168053 | RQE 102240. Formação em cardiologia e ecocardiografia pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Conteúdo de caráter educativo.
Referências: Lincoff AM et al. Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy (TRAVERSE). N Engl J Med. 2023;389:107-117. Baggish AL et al. Cardiovascular Toxicity of Illicit Anabolic-Androgenic Steroid Use. Circulation. 2017;135:1991-2002. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica, Resolução CFM 2.217/2018, art. 73.





