Dr. José Henrique Dias | Cardiologista em Santo André – São Paulo

Pressão alta e diabetes há muitos anos: o que o strain mostra que o ecocardiograma comum não mostra

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Dr. José Henrique Dias

CARDIOLOGISTA | CRM 168053 - RQE 102240

Na hipertensão e no diabetes de longa data, o strain (medida de quanto o músculo do coração se encurta a cada batida) consegue mostrar um músculo já cansado enquanto a fração de ejeção continua normal. Um GLS reduzido nesse contexto indica disfunção subclínica: o coração ainda bombeia bem, mas já sente os anos de sobrecarga.

Esse é o paciente que mede a pressão há dez, quinze anos, toma os remédios, faz exames de rotina e ouve que o ecocardiograma “deu normal”. Muitas vezes deu mesmo. A pergunta que o strain responde é outra: quanto esforço o músculo está fazendo para manter esse resultado.

Este texto parte do princípio de que você já sabe o básico sobre o exame. Se ainda não sabe, leia antes ecocardiograma com strain: o que é e quando fazer. Aqui o foco é o coração do hipertenso e do diabético.

Neste artigo

  1. O que anos de pressão alta e diabetes fazem com o músculo
  2. Por que a fração de ejeção costuma continuar normal
  3. O que um GLS reduzido sugere nesse contexto
  4. A pressão da madrugada também aparece no strain
  5. O que se faz com o achado
  6. Para quem o exame não acrescenta
  7. Perguntas frequentes
  8. Quando procurar um cardiologista

O que anos de pressão alta e diabetes fazem com o músculo do coração

Com a pressão alta, o ventrículo esquerdo (a câmara que bombeia sangue para o corpo) precisa empurrar o sangue contra uma resistência maior a cada batida. Ele responde como qualquer músculo submetido a carga: engrossa. É a hipertrofia do ventrículo esquerdo.

Na Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, a hipertrofia entra na lista de lesões de órgão-alvo, ou seja, danos que a pressão alta já causou em algum órgão. Pelo ecocardiograma, ela é definida quando a massa do ventrículo esquerdo, corrigida pela superfície do corpo, chega a 116 g/m² nos homens ou 96 g/m² nas mulheres. A mesma diretriz recomenda repetir a avaliação dessas lesões ao longo do tempo, para acompanhar se elas progridem, se estabilizam ou regridem.

O músculo mais grosso também fica mais rígido. Ele passa a ter dificuldade para relaxar e se encher entre uma batida e outra, o que se chama disfunção diastólica. Com o tempo, parte das fibras é substituída por tecido de cicatriz, a fibrose, que não contrai.

O diabetes agride o músculo por outro caminho. A glicose alta por muitos anos altera o metabolismo das células cardíacas, favorece depósito de gordura e de proteínas modificadas no músculo e lesa os vasos muito pequenos que o nutrem. Esse conjunto recebe o nome de cardiomiopatia diabética, e pode existir mesmo sem entupimento das coronárias.

Quando as duas doenças andam juntas, o que é comum, os efeitos se somam, sem que o paciente sinta nada nos primeiros anos.

Paciente conversando com o médico durante uma consulta cardiológica
O resultado do strain é discutido na consulta, junto com a pressão, a glicose e o colesterol. Foto: StockSnap (domínio público).

Por que a fração de ejeção costuma continuar normal

A fração de ejeção mede a porcentagem de sangue que sai do ventrículo a cada batida. Ela é o número mais conhecido do laudo do ecocardiograma e, no hipertenso e no diabético, costuma permanecer normal por muitos anos.

Há duas razões principais. A primeira é a compensação: as fibras que ainda funcionam bem trabalham mais. A segunda é geométrica. No coração hipertrofiado, a cavidade fica menor e a parede mais grossa; mesmo com cada fibra encurtando menos, o volume que sai em proporção ao que entrou pode continuar igual.

O strain olha justamente para as fibras longitudinais, que vão da base até a ponta do coração. Elas ficam na camada mais interna do músculo, a que primeiro sofre com a falta de irrigação e com a fibrose. Por isso o GLS (strain global longitudinal, a medida principal do exame) cai antes da fração de ejeção.

No hipertenso ou diabético de longa dataEcocardiograma convencionalEcocardiograma com strain
Espessura e massa do ventrículo esquerdoMostra a hipertrofiaMostra a hipertrofia
Relaxamento e enchimento (função diastólica)Mostra, com medidas de Doppler e do átrio esquerdoMostra o mesmo
Fração de ejeçãoMostra; costuma estar normal nessa faseMostra o mesmo
Qualidade da contração das fibras longitudinaisNão medeMede pelo GLS e mostra quais segmentos estão piores
Comparação fina com exames futurosLimitada, porque a fração de ejeção varia pouco nessa fasePermite acompanhar a variação do GLS ao longo do tempo

O que um GLS reduzido sugere nesse contexto

No equipamento usado no consultório, o GLS é considerado normal quando o valor absoluto passa de 18%, ou seja, -18% ou mais negativo. A forma de ler o sinal negativo e as diferenças entre aparelhos estão explicadas no artigo principal sobre o ecocardiograma com strain.

Num hipertenso ou diabético sem sintomas, com fração de ejeção normal, um GLS abaixo dessa referência sugere disfunção subclínica: o músculo já perdeu parte da capacidade de contração, mas ainda não a ponto de mudar a fração de ejeção nem de causar falta de ar.

Esse achado tem peso prognóstico. Um estudo australiano publicado na revista Heart (Holland e colaboradores, 2015) acompanhou 230 pessoas com diabetes tipo 2, sem sintomas, com fração de ejeção normal e sem doença coronária conhecida. No início, 45% já tinham disfunção detectada pelo GLS.

Num seguimento médio de cerca de sete anos, morte ou internação ocorreram em 37% de quem tinha GLS alterado e em 24% de quem tinha GLS normal. No mesmo estudo, a pressão sistólica e a hemoglobina glicada (a média da glicose dos últimos meses) também se associaram ao risco, de forma independente.

Sozinho, o GLS reduzido não fecha diagnóstico de insuficiência cardíaca, nem diz se a causa é só a pressão, só o diabetes ou outra doença associada. Ele mostra que o coração já foi afetado, e essa informação muda a conversa da consulta.

A pressão da madrugada também aparece no strain

Há um ponto que costuma passar despercebido. Em quem tem a pressão controlada no consultório, a pressão durante o sono pode continuar alta. Normalmente ela cai à noite; quando não cai, o padrão é chamado de non-dipper, e só aparece na MAPA de 24 horas.

Uma metanálise publicada no American Journal of Hypertension (Cuspidi e colaboradores, 2023) reuniu 9 estudos com 1.178 pessoas. Quem não tinha a queda noturna da pressão apresentava GLS médio de -18,4%, contra -20,1% em quem tinha. A fração de ejeção, por outro lado, era praticamente igual nos dois grupos.

Na prática, isso liga dois exames. Um strain alterado num hipertenso “bem controlado” no consultório é motivo para checar o que acontece com a pressão fora dele, especialmente à noite.

Quando o strain vem reduzido num paciente que diz ter a pressão sempre boa, o próximo exame que costumo pedir é a MAPA.

O que se faz com o achado

O strain reduzido não tem um remédio próprio. O que ele faz é tirar o paciente da categoria “está tudo sob controle” e justificar um acompanhamento mais próximo dos fatores que agridem o músculo.

FrenteO que costuma mudar depois de um GLS reduzido
Pressão arterialMeta mais rigorosa e conferência fora do consultório. A diretriz brasileira de 2025 recomenda, para quem tem hipertensão e diabetes, pressão abaixo de 130/80 mmHg.
GlicoseRevisão do controle do diabetes com o endocrinologista ou o clínico que acompanha o paciente.
ColesterolAjuste do LDL à meta do risco cardiovascular, que no diabético costuma ser mais baixa. Veja colesterol LDL alto: quais os riscos e o que fazer.
Exames complementaresMAPA, quando a pressão do consultório não explica o achado, e BNP (um exame de sangue que sobe quando o coração está sobrecarregado), que costumo pedir depois do ecocardiograma como complemento.
ReavaliaçãoNovo ecocardiograma com strain em intervalo definido na consulta, de preferência no mesmo serviço, para comparar com o exame anterior.

Peso, sono, sal, álcool e atividade física entram na mesma conta. As medidas do dia a dia estão em dicas para controlar a pressão alta.

Uma ressalva honesta: não há como prometer que o strain vai voltar ao normal. Parte das alterações pode melhorar com controle rigoroso, e parte, como a fibrose, tende a permanecer. O objetivo do acompanhamento é impedir que a disfunção avance até a fração de ejeção cair ou os sintomas aparecerem.

Para quem o exame não acrescenta

Ter pressão alta ou diabetes não significa que todo mundo precise de strain. A indicação sai da consulta, a partir de uma pergunta clínica.

Quem tem diagnóstico recente, pressão e glicose bem controladas e nenhum outro achado no ecocardiograma convencional dificilmente terá a conduta mudada pelo strain. O mesmo vale para quem já tem fração de ejeção reduzida: nesse caso, o problema já é visível sem ele.

O strain costuma fazer mais diferença no intervalo entre esses extremos: anos de doença, hipertrofia ou disfunção diastólica no ecocardiograma, cansaço sem explicação, controle difícil, ou dúvida sobre o quanto apertar o tratamento. Para entender o exame de base, leia ecocardiograma: o que é, para que serve e como é feito.

Perguntas frequentes

Meu ecocardiograma deu normal. Mesmo assim o strain pode vir alterado?

Pode. No estudo com diabéticos citado acima, quase metade dos pacientes com fração de ejeção normal tinha GLS reduzido. O ecocardiograma convencional normal não descarta disfunção subclínica.

Strain alterado quer dizer insuficiência cardíaca?

Não necessariamente. Em quem não tem sintomas e mantém a fração de ejeção normal, o achado indica que o músculo já foi afetado, e serve para orientar um controle mais rigoroso e um acompanhamento mais próximo.

O strain pode melhorar com o tratamento?

Em parte dos casos, sim, especialmente quando a pressão e a glicose passam a ficar na meta. A melhora não é previsível, e a fibrose já instalada costuma permanecer.

De quanto em quanto tempo repetir o exame?

O intervalo é definido na consulta, conforme o valor encontrado e a evolução da pressão e da glicose. Repetir no mesmo equipamento facilita a comparação.

Quando procurar um cardiologista

Vale conversar sobre o strain na consulta se você:

  • tem pressão alta ou diabetes há muitos anos e nunca avaliou o músculo do coração;
  • já teve hipertrofia ou disfunção diastólica descritas num ecocardiograma anterior;
  • tem a pressão boa no consultório, mas alta em casa ou na MAPA;
  • sente cansaço ou falta de ar aos esforços que não tinha antes, mesmo com exames “normais”.

Falta de ar súbita, dor no peito intensa ou desmaio pedem atendimento imediato no pronto-socorro.

No consultório, em Santo André, o ecocardiograma com strain, o eletrocardiograma e a MAPA são feitos na mesma estrutura da consulta, e o laudo do ecocardiograma sai logo após o exame.


Dr. José Henrique Dias de Sousa, médico cardiologista e ecocardiografista. CRM/SP 168053 | RQE 102240. Formação em cardiologia e ecocardiografia pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Conteúdo de caráter educativo.

Referências: Brandão AA, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial: 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624. doi:10.36660/abc.20250624. Holland DJ, Marwick TH, Haluska BA, et al. Subclinical LV dysfunction and 10-year outcomes in type 2 diabetes mellitus. Heart. 2015;101(13):1061-6. doi:10.1136/heartjnl-2014-307391. Cuspidi C, Gherbesi E, Faggiano A, et al. Early Left Ventricular Dysfunction and Non-Dipping: When Ejection Fraction is Not Enough. A Meta-Analysis of Speckle Tracking Echocardiography Studies. Am J Hypertens. 2023;36(2):109-119. doi:10.1093/ajh/hpac110.

Se você apresenta sintomas cardíacos ou deseja realizar uma avaliação preventiva, procure atendimento especializado. O Dr. José Henrique Dias é Cardiologista em Santo André – São Paulo, especialista em ecocardiograma, sócio titular da Sociedade Brasileira de Cardiologia, com títulos de Especialista em Cardiologia e Ecocardiografia reconhecidos pela SBC, além de atuar como médico do corpo clínico e preceptor no Hospital Israelita Albert Einstein Einstein.

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O Dr. José Henrique Dias é médico cardiologista especialista em ecocardiograma, sócio titular da Sociedade Brasileira de Cardiologia, com títulos de Especialista em Cardiologia e Ecocardiografia reconhecidos pela SBC, além de atuar como médico do corpo clínico e preceptor no Hospital Israelita Albert Einstein Einstein.

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Médico cardiologista especialista em ecocardiograma, com 11 anos de experiência e mais de 7.000 exames realizados com precisão e responsabilidade.

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